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17 de agosto de 2026
Artigo de: Redação

Os avanços recentes da inteligência artificial (IA) têm estimulado um importante debate sobre os efeitos dos ganhos de produtividade na inflação. Em particular, o novo presidente do Fed, Kevin Warsh, argumenta que a IA representará um choque poderoso e rápido de produtividade com efeitos desinflacionários, o que permitirá taxas de juros mais baixas.
No entanto, a relação entre produtividade e inflação é bem mais ambígua do que pode parecer à primeira vista. Em primeiro lugar, no longo prazo não existe relação entre as duas variáveis, já que em horizontes mais longos a inflação depende exclusivamente da política monetária. No curto e médio prazo, no entanto, a produtividade pode afetar a inflação, dependendo de seus efeitos sobre a oferta e demanda agregadas, assim como da reação da política monetária.
A ideia de que um aumento da produtividade é desinflacionário baseia-se no fato de que ganhos de eficiência reduzem o custo de produção, que por sua vez são repassados aos preços. Embora esse mecanismo seja relevante, trata-se de uma análise de equilíbrio parcial, que não considera os impactos da produtividade sobre a renda dos consumidores e a taxa de retorno dos investimentos.
Em modelos dinâmicos estocásticos de equilíbrio geral (DSGE), além do aumento da capacidade produtiva e da redução dos custos de produção, uma expectativa de aceleração da taxa de crescimento da produtividade resulta em elevação da renda permanente, o que por sua vez estimula maior consumo no presente. Além disso, ocorre um aumento da taxa esperada de retorno do capital físico (máquinas e equipamentos), o que leva a uma elevação dos investimentos.
Portanto, avanços tecnológicos podem ter efeitos desinflacionários do lado da oferta e inflacionários do lado da demanda. O efeito líquido dependerá da magnitude e do timing desses impactos. Choques temporários de produtividade tendem a ser desinflacionários, já que o efeito sobre a demanda é pequeno. Por outro lado, acelerações persistentes da produtividade podem afetar a demanda de forma mais significativa, com consequente aumento da inflação.
A reação da política monetária é outro determinante importante do resultado. A redução da poupança e o aumento do investimento elevam a taxa de juros neutra. Caso o Banco Central não reaja elevando a taxa de juros, a política monetária torna-se estimulativa, dificultando o controle da inflação.
Um episódio frequentemente citado para justificar a interpretação de que aumentos de produtividade são desinflacionários ocorreu na segunda metade da década de 1990, quando o Fed presidido por Alan Greenspan teria reconhecido o efeito desinflacionário do boom de produtividade decorrente das novas tecnologias de informação e evitado uma elevação de juros.
Essa história desconsidera, no entanto, o fato de que depois de ter se mantido contida durante algum tempo, a inflação começou a acelerar no final da década de 1990, o que eventualmente levou a uma elevação da taxa de juros, que provavelmente só não foi maior por causa da recessão de 2001.
Com o objetivo de quantificar os possíveis efeitos dos avanços da IA sobre a inflação, um estudo recente de Ludovica Ambrosina, Jenny Chan e Silvana Tenreyro (“Productivity and Inflation Dynamics”) utiliza um modelo Novo-Keynesiano de economia aberta para simular possíveis cenários.
Os resultados mostram que, independentemente de o aumento da produtividade ser temporário ou permanente, a inflação depende do equilíbrio entre a expansão da capacidade produtiva e a magnitude e o momento da resposta da demanda. Um ponto crucial é que as decisões de consumo e investimento dependem da expectativa de crescimento da produtividade. Isso ajuda a entender por que a demanda pode subir rapidamente mesmo que os ganhos de produtividade ainda não tenham se materializado.
Com base no modelo, podemos entender melhor o dilema atual do Fed. Embora a IA tenha o potencial de gerar uma aceleração significativa da taxa de crescimento da produtividade, os dados ainda não mostram efeitos positivos relevantes sobre a produtividade agregada. Por outro lado, a valorização das ações de empresas de tecnologia, combinada com investimentos expressivos em IA, já estão pressionando a demanda agregada.
O resultado tende a ser uma aceleração inflacionária ou sua permanência acima da meta por muito tempo. Nesse contexto, o Fed provavelmente terá que elevar a taxa de juros. Se e quando a promessa da IA se concretizar, a inflação entraria em trajetória declinante, permitindo uma redução de juros mais adiante.
Fernando Veloso é Diretor de Pesquisa do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social – Imds e escreve quinzenalmente, às sextas-feiras, para a Broadcast
Os artigos publicados na Broadcast expressam as opiniões e visões de seus autores.
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