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17 de agosto de 2026
Artigo de: Redação

Por Eduardo Felipe Matias*
Poucos temas têm despertado tanta atenção quanto os impactos da inteligência artificial sobre o mercado de trabalho, especialmente entre quem está começando a carreira. À medida que a tecnologia assume tarefas antes atribuídas a profissionais juniores, cresce a preocupação com seus efeitos sobre oportunidades de entrada e formação – e as possíveis consequências para as empresas.
Uma pesquisa da Universidade Stanford, já abordada nesta coluna, havia identificado os primeiros sinais desse problema. Entre o fim de 2022 e meados de 2025, em ocupações fortemente expostas à IA – como desenvolvimento de software -, o emprego na faixa de 22 a 25 anos recuou, enquanto cresceu entre profissionais mais velhos. Os pesquisadores compararam os jovens aos canários usados antigamente nas minas de carvão para detectar perigos. Uma possível explicação é que a IA substitui com maior facilidade tarefas apoiadas no conhecimento codificado, adquirido em cursos e manuais, do que aquelas que dependem do conhecimento decorrente da experiência.
Uma pesquisa recente da PwC, o 2026 Global AI Jobs Barometer, amplia e torna mais matizada essa análise. Com base em mais de 1 bilhão de anúncios de emprego em 27 países, o relatório mostra que contar vagas criadas ou eliminadas não basta para compreender os efeitos da IA, que também modifica o conteúdo das ocupações, as tarefas e as competências valorizadas.
O estudo identifica dois movimentos. Em ocupações “profissionalizadas”, a automação de tarefas rotineiras amplia a importância da criatividade, do julgamento, da liderança e do conhecimento especializado. Nas “democratizadas”, a tecnologia assume parte do trabalho mais complexo e reduz o grau de expertise necessário. Desde 2018, as vagas profissionalizadas cresceram 39%, ante 17% das democratizadas e, desde 2021, os salários avançaram 42% mais rápido nas primeiras.
Uma das principais tensões apontadas pelo relatório surge no início das carreiras. Jovens profissionais podem se beneficiar ao dedicar menos tempo a tarefas rotineiras, mas precisarão demonstrar mais cedo capacidades antes desenvolvidas ao longo dos anos. A análise de 2,4 milhões de vagas de entrada nos Estados Unidos mostra que as mais expostas à IA têm probabilidade sete vezes maior de exigir competências tradicionalmente associadas a profissionais seniores, como gestão de pessoas e de stakeholders, decisões baseadas em dados e interações presenciais. Nas vagas de entrada altamente expostas à IA, competências tradicionalmente seniores representam 52% das novas habilidades requeridas, contra apenas 7% nas menos expostas.
Essa mudança no perfil das vagas já se reflete em sua evolução. Entre 2019 e 2025, no grupo de maior exposição à IA nos Estados Unidos, as posições de entrada classificadas pela PwC como “seniorizadas” cresceram 35%, enquanto as demais recuaram 10%. Logo, a expansão se concentra nas oportunidades em que se pede aos iniciantes um repertório antes característico de profissionais mais experientes.
A implicação mais profunda disso está na formação desses profissionais. Se a IA assume atividades por meio das quais se aprendia a decidir e assumir responsabilidades, será preciso criar outros mecanismos para adquirir esse conhecimento. É difícil, por exemplo, cobrar liderança de quem ainda não acompanhou bons gestores, enfrentou decisões difíceis ou lidou com clientes e equipes.
Também muda rapidamente o que as empresas procuram. Nas ocupações mais expostas à IA, o conjunto de competências exigidas se transforma mais de duas vezes mais rápido do que nas menos expostas. E as novas tarefas incorporadas a essas funções dependem 2,5 vezes mais de capacidades tipicamente humanas, como empatia, visão e networking.
Isso não significa que as competências técnicas estejam perdendo importância. Entre 2024 e 2025, as vagas que exigiam conhecimentos específicos para trabalhar com IA cresceram aproximadamente 69%, diante de 9% do mercado geral. O prêmio salarial médio associado a esse perfil chegou a 62%.
Desse modo, para quem entra agora no mercado, as duas tendências precisam ser consideradas em conjunto. Domínio da IA ou competências humanas, isoladamente, parecem insuficientes. Cresce o valor de profissionais capazes de usar a tecnologia para formular e resolver problemas e, ao mesmo tempo, avaliar resultados, identificar falhas e responder pelas decisões tomadas.
Para as empresas, a transformação afeta a preparação de sua próxima geração de líderes. Quase metade dos CEOs ouvidos pela PwC espera que a adoção da IA reduza a contratação de profissionais juniores nos próximos três anos, enquanto apenas 12% preveem o mesmo efeito sobre posições seniores. Se a redução das oportunidades de entrada não vier acompanhada de novas formas de aprendizagem, as organizações podem comprometer a formação de futuros gestores.
A resposta passa por redesenhar programas de onboarding, estágio e mentoria. Se a IA assume parte das atividades básicas por meio das quais os profissionais juniores aprendiam, será necessário expô-los mais cedo a problemas reais, com orientação de profissionais experientes, feedback e responsabilidade progressiva. A tecnologia pode assumir parte desse trabalho, mas não produz, por si só, o discernimento e o conhecimento tácito que vêm com a experiência.
A automação pode liberar os jovens de parte do trabalho básico e antecipar seu contato com atividades mais complexas. O desafio é assegurar que não desapareçam as oportunidades de formação. Empresas e sistemas de ensino precisarão encontrar maneiras de desenvolver tanto a fluência tecnológica quanto as capacidades humanas que o avanço da IA torna mais valiosas.
*Eduardo Felipe Matias é sócio de Elias, Matias Advogados e autor de A humanidade e o poder digital e dos livros premiados com o Jabuti A humanidade e suas fronteiras e A humanidade contra as cordas, além de coordenador do livro Marco Legal das Startups. Doutor pela USP, é professor convidado da Fundação Dom Cabral.
Os artigos publicados na Broadcast expressam as opiniões e visões de seus autores.
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