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Diferenças no uso da inteligência artificial entre EUA e Europa

22 de abril de 2026

Diferenças no uso da inteligência artificial entre EUA e Europa

Entre 1995 e 2025, a produtividade por hora trabalhada cresceu 85% nos Estados Unidos e apenas 29% na Europa. Várias pesquisas mostram que essa diferença reflete a maior criação e disseminação de tecnologias de informação e comunicação na economia americana nas últimas décadas.

Uma questão particularmente relevante é se a utilização da inteligência artificial (IA) generativa vai reduzir ou exacerbar as diferenças de crescimento da produtividade entre os EUA e a Europa. Embora ainda seja cedo para obter conclusões definitivas, novas bases de dados sobre o uso de IA por trabalhadores e empresas fornecem informações relevantes para entender os efeitos das novas tecnologias no crescimento econômico.

Um estudo recente de Alexander Bick e coautores (“Mind the Gap: AI Adoption in Europe and the US”) combina informações de surveys de trabalhadores e firmas conduzidos em 2025 e 2026 para documentar disparidades na adoção de IA entre os EUA e a Europa, assim como entre países europeus.

Um primeiro resultado é que o uso de IA generativa por trabalhadores e empresas é maior nos EUA do que na Europa. Enquanto 43% dos trabalhadores americanos usam IA, as taxas de adoção na Europa são substancialmente mais baixas, variando entre 26% na Itália e 36% no Reino Unido.

A intensidade do uso de IA no trabalho também é bem maior nos EUA (5,2% das horas trabalhadas) do que na Europa, onde menos de 3% das horas trabalhadas usam IA. Um padrão similar aparece nos dados das empresas. Enquanto 7% das firmas americanas usam IA na produção de bens e serviços, a média europeia é de cerca de 4%.

Em seguida, os autores analisam os determinantes das diferenças na adoção de IA entre os EUA e a Europa. Cerca de metade dessas diferenças pode ser explicada por variações nas características dos trabalhadores e na composição das firmas entre países.

Por exemplo, os trabalhadores americanos são, em média, mais jovens e escolarizados do que os europeus, e esses grupos demográficos usam IA de forma mais intensiva. Empresas de maior porte e serviços de informação e comunicação também apresentam maiores taxas de utilização de IA e são mais prevalentes nos EUA.

Uma parcela considerável do restante da diferença no uso de IA entre os EUA e a Europa está relacionada a diferenças na gestão empresarial. Com base em informações da World Management Survey, os autores mostram que a melhor qualidade da gestão das empresas americanas está fortemente correlacionada com a adoção mais intensa de IA.

Finalmente, Bick e coautores examinam a relação entre uso de IA e crescimento da produtividade. Nos EUA, um aumento de 10 pontos porcentuais (p.p.) na adoção de IA está associado a um crescimento acumulado de 3,7% entre 2019 e 2024. Essa estimativa é similar à obtida para os países europeus.

Em resumo, nos Estados Unidos, as empresas e os trabalhadores usam IA de forma mais intensiva do que na Europa. Como uma maior adoção de IA está fortemente correlacionada com taxas de crescimento da produtividade mais elevadas, os resultados sugerem que a diferença de crescimento entre os Estados Unidos e a Europa vai aumentar no futuro. Embora parte das diferenças no uso de IA esteja associada a características estruturais do mercado de trabalho e à composição setorial da economia, práticas de gestão empresarial que criem incentivos para o uso de IA podem ser efetivas.

O estudo não inclui o Brasil, mas a baixa escolaridade da mão de obra, a concentração da atividade econômica em serviços pouco produtivos e a prevalência de firmas pequenas indicam que o uso de IA por trabalhadores e empresas brasileiras provavelmente é muito inferior ao dos EUA e da Europa. Isso indica que a distância do Brasil para as economias avançadas tende a aumentar nos próximos anos.

Fernando Veloso é Diretor de Pesquisa do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social – Imds e escreve quinzenalmente, às sextas-feiras, para a Broadcast.

Os artigos publicados na Broadcast expressam as opiniões e visões de seus autores.

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