19 de março de 2026

Guerras no Oriente Médio costumam provocar uma reação quase automática nos mercados: o preço do petróleo sobe e o mundo desacelera. Desta vez, porém, a história é mais complexa. O conflito envolvendo o Irã ocorre em um momento em que a economia global já vinha desacelerando, a inflação ainda não foi completamente derrotada e as cadeias de energia e comércio estão mais fragmentadas. O resultado não é um choque uniforme. É uma onda de pressão que atravessa as economias de forma desigual, ampliando diferenças que já existiam antes da guerra.
O primeiro lugar onde essas tensões aparecem é nos Estados Unidos. A economia americana entrou em 2026 ainda crescendo, mas com bases relativamente estreitas. O consumo de serviços e os investimentos ligados à tecnologia continuam sustentando a atividade, enquanto outros setores mostram sinais de cansaço. O choque do petróleo funciona como um imposto sobre a renda das famílias e eleva os custos para as empresas. Ao mesmo tempo, complica o trabalho do Federal Reserve. Se a guerra mantiver os preços de energia elevados, a inflação pode voltar a subir justamente quando o banco central começava a discutir cortes de juros. A economia americana dificilmente entrará em crise por causa do petróleo, mas o conflito aumenta o risco de um crescimento mais fraco e prolonga o período de juros elevados.
Na Europa, o impacto tende a ser mais direto. O continente continua altamente dependente de energia importada e já passou por um choque semelhante após a invasão da Ucrânia. Um novo aumento persistente dos preços do petróleo e do gás pode reacender pressões inflacionárias justamente quando a atividade econômica ainda mostra sinais de fragilidade. A indústria europeia, que já enfrenta concorrência crescente dos Estados Unidos e da China, sente rapidamente o aumento dos custos energéticos. O resultado provável é um crescimento ainda mais modesto e um Banco Central Europeu obrigado a manter cautela.
O Japão enfrenta um dilema semelhante. O país importa praticamente toda a energia que consome e sua moeda permanece relativamente fraca. Isso significa que cada aumento no preço do petróleo se traduz rapidamente em custos mais altos para empresas e consumidores. O Banco do Japão vinha tentando normalizar sua política monetária após décadas de juros muito baixos. Um choque energético prolongado pode tornar esse processo ainda mais delicado.
Nos mercados emergentes, o choque de preços e de fluxos de energia revela algo mais profundo: diferenças estruturais entre países.
O impacto do choque depende de três fatores principais. O primeiro é a dependência direta de importações de energia. Países que importam grande parte do petróleo que consomem veem suas contas externas se deteriorarem rapidamente quando os preços sobem. O segundo é a transmissão para a inflação. Em muitas economias emergentes, alimentos e energia têm peso elevado nos índices de preços. Quando o petróleo sobe, fertilizantes e custos de transporte também aumentam, pressionando os preços dos alimentos. O terceiro fator é a fragilidade financeira. Países com reservas internacionais limitadas ou grande dependência de investidores estrangeiros em seus mercados de dívida podem enfrentar pressões cambiais e saídas de capital.
Quando esses três elementos se combinam – dependência energética, inflação sensível e vulnerabilidade financeira – um choque de preços, ou mesmo dificuldades de acesso a um insumo essencial como energia, pode rapidamente se transformar em um problema macroeconômico mais amplo. É por isso que alguns países aparecem hoje como particularmente expostos, enquanto outros demonstram maior capacidade de absorver o choque.
A Ásia emergente concentra vários casos de maior vulnerabilidade. Economias como Índia, Tailândia e Vietnã combinam elevada dependência de energia importada com cadeias industriais intensivas em transporte e logística. Nessas economias, um aumento persistente do petróleo pode pressionar tanto a inflação quanto as contas externas.
As economias do Oriente Médio também enfrentam fragilidades evidentes, sejam elas produtoras de petróleo e gás ou não. Países exportadores continuam sujeitos a dificuldades para escoar sua produção diante dos riscos de fechamento do Estreito de Ormuz e das incertezas provocadas pela própria guerra. Já economias importadoras enfrentam diretamente o aumento dos custos energéticos. O Egito se encontra em uma situação particularmente delicada. O país combina maior dependência de importações de energia com reservas externas limitadas e forte presença de investidores estrangeiros em seu mercado de dívida doméstica. Nesse contexto, um aumento persistente do preço do petróleo não pressiona apenas a conta de importações de energia. Ele também alimenta a inflação, dificulta a política monetária e aumenta o risco de saídas de capital em momentos de maior aversão ao risco nos mercados globais.
Na América Latina, o quadro é mais heterogêneo. A região não aparece como um bloco particularmente vulnerável, mas os efeitos diferem bastante entre países.
O México, por exemplo, tornou-se mais dependente de energia importada ao longo do tempo, especialmente de combustíveis refinados e gás natural. Isso significa que o aumento do petróleo pode pressionar inflação e contas externas, além de exigir maior intervenção do governo para conter o impacto sobre os preços domésticos.
A Argentina se encontra em uma posição intermediária. O desenvolvimento de Vaca Muerta tem ampliado a produção de energia e reduzido a dependência externa, mas o país ainda enfrenta desafios macroeconômicos importantes, especialmente inflação elevada e fragilidade financeira. Um choque energético prolongado pode complicar a estabilização econômica.
O caso mais interessante na região talvez seja o do Brasil. Diferentemente de muitos emergentes, o país entra neste episódio como exportador líquido de petróleo e grande produtor de commodities agrícolas. Isso significa que uma alta do preço do petróleo tende a melhorar os termos de troca e fortalecer as contas externas.
Esse benefício, porém, não é absoluto. O Brasil continua dependente da importação de fertilizantes, e um choque energético pode elevar os custos de produção agrícola. Além disso, o petróleo mais caro pressiona a inflação doméstica e complica o trabalho da política monetária. Ainda assim, no balanço geral, o país está melhor posicionado que muitos outros emergentes para absorver o choque.
Essa diferenciação é talvez a característica mais importante do momento atual. A guerra no Irã não produz um único impacto sobre a economia global. Ela amplia as diferenças entre economias, dependendo de como cada país produz energia, financia sua economia e administra suas vulnerabilidades externas.
No fim das contas, o que importa não é apenas o nível dos preços do petróleo e do gás, mas a duração do choque. Um aumento temporário tende a gerar apenas turbulência nos mercados. Um período prolongado de tensão no Oriente Médio, especialmente se afetar rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz, pode transformar um choque de preços em um problema macroeconômico mais amplo.
Se isso acontecer, o mundo não reagirá de maneira uniforme. Alguns países sentirão o impacto de forma intensa. Outros descobrirão que suas estruturas econômicas oferecem mais proteção do que se imaginava.
Guerras muitas vezes revelam fragilidades escondidas. A atual guerra no Oriente Médio está fazendo o mesmo com a economia global.
Marcello Estevão, PhD MIT, é Diretor Gerente e Economista Chefe do Institute of International Finance e professor da Universidade de Georgetown em Washington, DC. Foi Secretário para Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda e trabalhou no Banco Mundial, FMI, Federal Reserve e Tudor Investment Corporation.
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