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ARTIGO/EDUARDO FELIPE MATIAS: O que a cúpula da Índia revela sobre a agenda da IA

20 de março de 2026

ARTIGO/EDUARDO FELIPE MATIAS: O que a cúpula da Índia revela sobre a agenda da IA

Por Eduardo Felipe Matias*

O AI Impact Summit 2026, realizado em Nova Délhi em fevereiro, serviu como uma boa biruta para mostrar para onde sopra hoje o vento da governança global da inteligência artificial: menos ênfase em segurança, mais em implementação, negócios, infraestrutura, qualificação de pessoas e geopolítica.

Após a cúpula de Paris, no ano passado, havia observado nesta coluna uma mudança relevante de enfoque. Naquela ocasião, segurança e regulação, até então temas prioritários, ficaram em segundo plano, ofuscadas por promessas de investimentos e declarações de que os países que insistissem em adotar legislações mais rígidas poderiam ficar para trás na corrida da IA.

A cúpula da Índia sugere um aprofundamento dessa inflexão. O encontro teve forte componente de feira de negócios, com novos anúncios de investimentos e a presença de startups e de CEOs das principais empresas do setor, como Sundar Pichai (Google), Sam Altman (OpenAI) e Dario Amodei (Anthropic). Consolidou, ainda, três frentes que vêm ganhando peso nas discussões sobre IA e que já foram objeto de análise neste espaço.

A primeira delas diz respeito ao mercado de trabalho. Tanto pelo receio do desemprego quanto pela busca de produtividade e competitividade, a reunião deu destaque ao capital humano, com ênfase em requalificação e alfabetização tecnológica. A segunda é a sustentabilidade da IA, tratada sob a ótica da eficiência energética e da resiliência da infraestrutura. A terceira é a soberania digital, entendida como a capacidade de um país reduzir dependências tecnológicas, governar dados e garantir acesso a nuvem, chips, data centers e capacidade computacional para participar da economia da IA em condições menos desiguais.

Na sequência que começou com o AI Safety Summit de 2023 em Bletchley Park, no Reino Unido, e passou por Seul em 2024 e por Paris em 2025, o encontro de Nova Délhi marcou a primeira edição realizada no Sul Global. A própria mudança de nomenclatura – de “segurança” para “impacto” – ajuda a explicar o deslocamento de prioridades. Nesse contexto, a Índia incorporou pautas caras aos países emergentes, defendendo uma agenda de “AI for All”, com ênfase em inclusão, multilinguismo e aplicações locais.

No entanto, a retórica da “democratização” pouco se traduziu, no evento, em maior espaço para temas como não discriminação, equidade e distribuição de valor. Ela se refletiu muito mais na ampliação do acesso à infraestrutura e a oportunidades de mercado do que na proteção de direitos, na prestação de contas e na redistribuição efetiva de poder.

Assim, outra lição relevante do encontro é geopolítica. Os países que lideram a corrida da IA dificilmente aceitarão acordos que reduzam sua vantagem competitiva, e em Nova Délhi isso foi explicitado pelo chefe da delegação americana, Michael Kratsios, ao afirmar que os EUA “rejeitam totalmente” uma governança global de IA – posicionamento coerente com o recado dado na cúpula de Paris do ano passado pelo vice-presidente JD Vance, que advertiu que a regulação excessiva poderia “matar” uma indústria transformadora. A mensagem dos EUA, ao longo desses encontros, tem sido a mesma, priorizando o rápido desenvolvimento da IA e demonstrando forte desconfiança em relação a marcos multilaterais mais restritivos.

Ao mesmo tempo, qualquer ambição de tratado global minimamente relevante esbarra no fato de que EUA e China concentram capacidade tecnológica, capital, infraestrutura e empresas-chave. Sem a adesão de ambos, as tentativas de governar a IA serão pouco efetivas. Essa tensão esteve no coração da cúpula indiana. O encontro, que poderia ter sido uma oportunidade para impulsionar uma cooperação estratégica entre potências intermediárias, produziu resultados aquém do necessário para enfrentar as assimetrias da economia global da IA.

Do ponto de vista formal, o principal resultado foi a Declaração de Nova Délhi sobre o Impacto da IA, que organiza a cooperação em sete pilares (“Chakras”): democratização de recursos de IA, crescimento econômico e bem-estar social, IA segura e confiável, IA para ciência, acesso para empoderamento social, desenvolvimento de capital humano e sistemas de IA resilientes, eficientes e inovadores.

Além disso, foram apresentadas iniciativas associadas, como o Charter for the Democratic Diffusion of AI, o Global AI Impact Commons, o Trusted AI Commons, um guia prático para desenvolvimento da força de trabalho, com princípios de requalificação, além de diretrizes para resiliência e eficiência em IA.

Porém, a cúpula não trouxe detalhes sobre implementação, cronogramas, mecanismos de financiamento, monitoramento e estruturas institucionais capazes de concretizar essas ambições. A declaração e as iniciativas dela decorrentes são voluntárias e não vinculantes, um padrão comum em processos multilaterais – as negociações climáticas, por exemplo, mesmo com décadas de tratativas e com uma arquitetura institucional mais consolidada, ainda enfrentam dificuldades para estabelecer metas obrigatórias e mecanismos de fiscalização, mesmo diante da urgência de combater o aquecimento global. Em IA, onde as mudanças devem ser ainda mais aceleradas, o desafio tende a ser maior.

*Eduardo Felipe Matias é sócio da área empresarial de Elias, Matias Advogados. Autor dos livros A humanidade e suas fronteiras e A humanidade contra as cordas, ganhadores do Prêmio Jabuti e coordenador do livro Marco Legal das Startups.

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