29 de junho de 2026
Artigo de: Redação

Durante décadas, o crescimento da produção de carne bovina no Brasil esteve associado à expansão das áreas de pastagem. Produzir mais significava ocupar mais terra. Nos últimos anos, porém, essa lógica mudou.
Em 2025, a área com pastagens do País atingiu o menor patamar desde 1970, segundo dados do IBGE e estimativas da Scot Consultoria, conforme apresentado na figura 1.

Ainda assim, a produtividade da bovinocultura de corte nacional, medida em quilogramas de carcaça produzidos por hectare de pastagem, alcançou o maior nível da série histórica, chegando a 73,2 kg/ha em 2025 (figura 2).

O contraste entre esses dois indicadores ajuda a explicar uma das maiores transformações vividas pela pecuária brasileira nas últimas décadas: a capacidade de produzir mais carne utilizando menos terra.
A necessidade de aumentar a produção sem expandir a fronteira pecuária levou produtores a buscar ganhos de eficiência em todas as etapas do sistema produtivo. O peso médio das carcaças produzidas no País passou de 224,0kg em 1997, para 257,5kg, em 2025, um incremento de 14,9%, equivalente a aproximadamente 2,2 arrobas por animal.
Essa evolução não aconteceu por acaso. O avanço genético dos rebanhos, a melhoria do manejo de pastagens, a adoção de tecnologias nutricionais e a profissionalização da gestão permitiram que a pecuária brasileira elevasse sua produtividade de forma consistente. Nesse contexto, a intensificação das fases de cria e recria, associada ao confinamento na etapa de terminação, passou a desempenhar papel relevante.
À medida que os sistemas produtivos se tornaram mais intensivos, o confinamento deixou de ser apenas uma alternativa para a engorda final dos bovinos e passou a ocupar posição estratégica dentro das propriedades. O crescimento da atividade nos últimos anos reflete essa mudança.
Entre 2022 e 2025, o número de bovinos terminados em confinamento saltou de 6,1 milhões para 9,1 milhões de cabeças. Para 2026, as estimativas da Scot Consultoria apontam para um novo avanço, com 9,3 milhões de bovinos confinados.

Mais importante do que o crescimento absoluto é a participação crescente do confinamento na produção nacional de carne bovina. Em 2011, os bovinos terminados em cocho representavam 16,7% dos abates brasileiros. Em 2025, essa participação alcançou 21,2%.

Esse avanço revela uma característica interessante da atividade. Mesmo nos períodos em que o volume total de abates do País diminuiu, a participação do confinamento continuou relevante. Em outras palavras, independentemente dos ciclos pecuários, a ferramenta seguiu ganhando espaço dentro da cadeia produtiva. Em 2025, os dois movimentos ocorreram simultaneamente: o número total de bovinos abatidos cresceu e, ao mesmo tempo, o confinamento ampliou sua participação no abate nacional.
As projeções da Scot Consultoria indicam que, em 2026, a atividade poderá superar, pela primeira vez, a marca de 23,0% de participação no total de bovinos abatidos no País. Entretanto, o crescimento do confinamento não está relacionado apenas ao aumento do número de bovinos terminados em cocho. Seu principal impacto está na capacidade de acelerar o ciclo produtivo e aumentar a produtividade dos sistemas.
Ao concentrar elevadas taxas de ganho de peso em um curto espaço de tempo, o confinamento contribui diretamente para a redução da idade de abate. Essa característica permite maior giro de capital, melhora o aproveitamento das áreas produtivas e aumenta a eficiência da propriedade como um todo.
Dados do Confina Brasil mostram que, em 2025, a idade média de saída dos bovinos machos confinados foi de 23,5 meses. Para as fêmeas, a média foi ainda menor, de 19,9 meses. O levantamento também mostrou que apenas 5,8% das propriedades avaliadas projetaram idade média de saída dos machos acima de 30 meses, enquanto nenhuma propriedade reportou fêmeas saindo com mais de 28 meses.
Esses números ajudam a explicar uma importante mudança observada no perfil dos bovinos abatidos no Brasil. O confinamento tem permitido que bovinos sejam abatidos cada vez mais jovens, mantendo (ou até ampliando) os pesos finais alcançados. Trata-se de uma estratégia alinhada às exigências dos principais mercados consumidores, especialmente da China, principal destino da carne bovina brasileira, que demanda bovinos abatidos com até 30 meses de idade.
Como consequência, a participação de novilhos e novilhas no abate nacional vem crescendo de forma consistente. O confinamento tornou-se uma ferramenta estratégica para a produção de bovinos jovens, mais pesados e mais adequados aos padrões exigidos pelos mercados internacionais.
Entretanto, limitar o confinamento à produção de bovinos para abate seria ignorar a evolução recente da atividade. O que antes era visto principalmente como um sistema de terminação passou a assumir múltiplas funções dentro das propriedades.
Dados do Confina Brasil 2025, que mapeou aproximadamente, um terço do gado confinado no País, mostram que os produtores têm utilizado essas estruturas para diferentes objetivos produtivos.
Uma das atribuições estratégicas mais comuns ocorre durante o período seco. Ao direcionar bovinos para o confinamento, o produtor reduz a pressão sobre as pastagens justamente no momento de menor capacidade de suporte, preservando as áreas e garantindo continuidade ao desempenho dos bovinos. Nessa situação, o confinamento atua como uma extensão estratégica do sistema produtivo. Sua utilização também se estende à recria intensiva, ao preparo de fêmeas para reprodução, à realização de avaliações genéticas e às operações de pré-embarque destinadas à exportação de bovinos vivos.
Essa última função merece destaque. O Brasil ultrapassou novamente a marca de um milhão de bovinos vivos exportados e alcançou recorde de embarques pelo segundo ano consecutivo. Esse crescimento aumenta a demanda por estruturas intensivas destinadas à adaptação, à padronização dos lotes e ao atendimento das exigências sanitárias dos países importadores.

Ao mesmo tempo em que a demanda por sistemas intensivos cresce, o cenário de custos também tem favorecido a atividade. O milho, principal ingrediente energético utilizado nos últimos três anos por 98,3% dos confinamentos mapeados pelo Confina Brasil em 2025, apresenta uma relação de troca favorável para o pecuarista. Nos principais estados confinadores, como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e São Paulo, os indicadores representam as melhores condições observadas desde o segundo semestre de 2025.
A expansão da produção de milho, especialmente da segunda safra, ampliou a disponibilidade de insumos energéticos e contribuiu para aumentar a competitividade dos sistemas intensivos, sobretudo nas regiões produtoras de grãos do Centro-Oeste.
Todos esses fatores ajudam a explicar por que o confinamento ocupa hoje uma posição muito diferente daquela observada há algumas décadas. O crescimento da produtividade, a estabilização da área de pastagens, a busca por maior eficiência produtiva, a evolução tecnológica da pecuária e a disponibilidade de insumos transformaram o confinamento em uma das principais ferramentas de intensificação da bovinocultura brasileira.
Mais do que um sistema de terminação, o confinamento tornou-se um componente multifuncional dentro das propriedades, contribuindo para a produção de mais carne em menos área, para a redução da idade de abate e para o aumento da competitividade do setor. Se as tendências atuais se confirmarem, a participação na produção nacional deverá continuar crescendo nos próximos anos, acompanhando a evolução tecnológica e gerencial da pecuária brasileira.
Chamada: O Brasil produz mais carne bovina do que nunca, mesmo com a menor área de pastagens desde 1970. Por trás dessa transformação, o confinamento vem ganhando protagonismo e ampliando sua participação na produção nacional. Muitos dos indicadores apresentados neste artigo, assim como diversos outros dados relacionados à evolução do confinamento brasileiro, serão acompanhados em campo pela equipe do Confina Brasil durante a rota 2026 da expedição, que começa em 29 de junho e percorrerá 14 estados brasileiros. Mais informações em www.confinabrasil.com e nas redes sociais @confinabrasil.
Alcides Torres, engenheiro agrônomo e analista de mercado da Scot Consultoria, com colaboração de Daniel Quintana, pesquisador da Scot
alcides.torres@scotconsultoria.com.br | dq@scotconsultoria.com.br | www.scotconsultoria.com.br
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