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Artigo/Luiz Fernando Figueiredo: O Brasil está correndo atrás da fronteira tecnológica global?

31 de março de 2026

Artigo/Luiz Fernando Figueiredo: O Brasil está correndo atrás da fronteira tecnológica global?

A produtividade nos EUA acelerou nos últimos anos. Apesar de uma queda em 2022, quando a economia foi afetada por fatores cíclicos adversos, a produtividade do trabalho voltou a uma trajetória de alta desde 2023, bem acima da tendência pré-Covid. Os dados trimestrais de 2025 reforçam essa observação e sugerem nova aceleração: nos últimos três trimestres do ano, a produtividade cresceu a uma taxa anualizada de 4,1%, um ritmo visto pela última vez no fim dos anos 1990.

A questão é se o Brasil seguirá esse movimento. O crescimento no Brasil tem sido relativamente elevado nos últimos anos, o que levanta dúvidas sobre uma possível aceleração do crescimento potencial e gera amplo debate sobre quando e como a economia responderá à política monetária persistentemente restritiva. Para começar, quais são as forças por trás do crescimento recente no Brasil?

Um ponto extremamente importante é que crescimento do PIB e crescimento da produtividade são conceitos distintos. O crescimento ‘headline’ da economia tem sido robusto: o PIB avançou 3,2%, 3,4% e 2,4% em 2023-25, respectivamente, acima das estimativas de crescimento potencial em torno de 1,5% a 2,0%. O conceito de “potencial” é particularmente desafiador no Brasil, dada a história de grandes oscilações na tendência de crescimento (por exemplo, o boom durante o superciclo de commodities no início dos anos 2000, seguido por uma “década perdida” após a crise financeira global).

Em termos gerais, o crescimento potencial pode ser visto como resultado de três componentes: tendências demográficas contribuindo com cerca de 0,5% a 1,0%; acumulação de capital em magnitude semelhante; e produtividade total dos fatores entre 0,0% e 0,5%. Essa decomposição está em linha com o observado nos últimos anos, com medidas de produtividade crescendo bem abaixo do PIB. A produtividade do trabalho tem sido fraca, praticamente estável desde 2023 e em queda relativa em comparação com a produtividade dos EUA ao longo da última década.

O que explica essa diferença relevante entre PIB e produtividade? Em resumo, o PIB foi impulsionado de forma desproporcional por um choque agrícola recorde, forte crescimento do emprego e consumo sustentado por expansão fiscal e de crédito, fazendo com que cerca de dois terços do crescimento recente tenham vindo do aumento do uso de trabalho e de fatores cíclicos, e não de ganhos de eficiência. Essa observação está diretamente relacionada à ideia de que a política monetária restritiva dos últimos quatro anos foi, ao menos em parte, compensada por uma política fiscal expansionista, reduzindo sua eficácia ou, no mínimo, retardando sua transmissão para a economia real.

Finalmente, em que medida a experiência dos EUA reflete fatores globais que podem beneficiar a produtividade brasileira? Por um lado, o Brasil pode se beneficiar significativamente em áreas com baixa barreira à adoção tecnológica. A inteligência artificial é o principal exemplo: sua difusão internacional é relativamente fácil (por meio de plataformas em nuvem, APIs e empresas multinacionais), reduzindo a necessidade de inovação de fronteira doméstica e permitindo uma convergência mais rápida à medida que outros insumos complementares melhoram. O Brasil já demonstrou, em setores como agronegócio e fintechs, que consegue adotar e escalar rapidamente tecnologias de ponta quando os incentivos estão alinhados, o que sugere que ganhos semelhantes são possíveis em uma escala mais ampla.

Por outro lado, as barreiras à adoção de IA no Brasil – falta de qualificação do trabalho, alto custo de capital, baixa concorrência e grande presença de empresas de baixa produtividade – são de natureza estrutural e persistem há décadas. Superá-las exige uma importante agenda de reformas, a começar pelo Estado, onde impera o gasto excessivo e uma enorme ineficiência, trazendo o custo de capital a um nível incompatível com o investimento produtivo, além reformas complementares em educação, mercados financeiros e ambiente de negócios, redução do risco jurídico e não apenas o acesso à tecnologia. Como exemplo temos a tributação no Brasil, além de ser excessiva, ela também é um pesadelo a aquelas empresas que querem pagar direito seus tributos. É comum no país a Suprema Corte mudar seu entendimento sobre questões tributárias inclusive sobre o passado.

A aceleração recente da produtividade nos EUA – impulsionada por IA, digitalização e forte dinâmica empresarial – sugere que a fronteira tecnológica global está avançando mais rapidamente, elevando o desafio para o Brasil acompanhar.

Isso representa tanto uma oportunidade quanto um risco: se o Brasil enfrentara dificuldades na difusão tecnológica, devido à má alocação de recursos, baixa concorrência e ao peso de um grande setor de serviços de baixa produtividade. A não ser de uma importante mudança no arcabouço de políticas públicas com o objetivo de ampliar a produtividade e com isso o PIB potencial, veremos a aceleração dos EUA, pelo menos no curto prazo, ampliando o diferencial de produtividade entre os dois países e provavelmente com relação ao mundo.

Luiz Fernando Figueiredo é sócio e conselheiro da Jubarte Capital*

*Este artigo teve coautoria de Benjamin Mandel, sócio e chefe de pesquisa da Jubarte Capital.

Os artigos publicados na Broadcast expressam as opiniões e visões de seus autores.

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