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CNA vê alta de custo do agro do Brasil por conflito no Oriente Médio

Diretor técnico da entidade, Bruno Lucchi, afirma que preços já subiram e o impacto deve ser visto na próxima safra

9 de março de 2026

Isadora Duarte

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) vê inflação de custos do agronegócio brasileiro em decorrência do conflito no Oriente Médio, que completa dez dias após o ataque de Estados Unidos e Israel ao Irã. Análise técnica feita pela entidade revela aumento dos preços do diesel, impulsionado pela alta na cotação do petróleo, e dos fertilizantes nitrogenados.

“Os preços já subiram e o impacto em custo deve ser visto na próxima safra. A depender do prolongamento do conflito e de como vai afetar o setor, pode haver reflexo na intenção de plantio na safra 2026/27, que começa a ser semeada em setembro”, disse o diretor técnico da CNA, Bruno Lucchi, ao Broadcast Agro.

A CNA cita, em nota técnica, quatro impactos potenciais no mercado interno brasileiro. São eles: alta da ureia pressionada pelo incremento do gás natural; encarecimento de frete, seguro e operação marítima dado o risco no Estreito de Ormuz; oferta global limitada em virtude de redução de embarques e atraso em entregas por interrupções logísticas; e volatilidade com oscilação de preços, de contratos futuros e do câmbio.

A entidade ressalta que o Oriente Médio responde por 20% do comércio internacional de petróleo e gás natural; 30% dos fertilizantes comercializados no mundo e de 25% a 35% do comércio global de amônia e ureia. “A região é estratégica para energia, gás e ureia, e qualquer disrupção em Ormuz rapidamente pressiona os custos globais e o mercado brasileiro”, destaca a CNA, mencionando disparada de 27% no preço do petróleo brent, com o barril chegando a US$ 84.

De acordo com dados da confederação, já há impacto do conflito no preço do diesel com relatos de produtores de aumento de R$ 1 por litro em áreas de Goiás, o que afeta as operações mecanizadas da safra, tanto a colheita dos cultivos de verão quanto o plantio das lavouras de inverno. “A preocupação número um é com o diesel, com preços e normalidade de abastecimento que afetam operações mecânicas e o frete de transporte dos insumos e abusos já identificados”, pontuou Lucchi.

Para a CNA, o setor de fertilizantes tem alta exposição aos efeitos do conflito. Dados da confederação revelam que 22 milhões de toneladas de ureia são exportadas pelo bloco, sendo que 35% da ureia brasileira tem origem na região. “Fertilizantes é a cadeia mais sensível, pois combina risco geopolítico, pressão sobre gás natural, ureia, frete e seguro marítimo”, considera a confederação. O preço da ureia importada subiu 33% desde o início do conflito, de 26 de fevereiro a 6 de março.

Lucchi pondera, entretanto, que a maior parte de utilização do insumo nas lavouras ocorre neste momento, sendo que o produto já foi adquirido pelos produtores. “Com boa parte dos fertilizantes comprados, produtor pode esperar para adquirir o restante, diferentemente do combustível que utiliza neste momento no campo”, observou Lucchi.

O diretor técnico da CNA enfatiza que a conjuntura atual do agronegócio torna os impactos do conflito ainda mais temerosos. “O setor enfrenta uma situação crítica com problema de acesso a crédito, juros elevados, endividamento, margens achatadas, menor rentabilidade, preços sem perspectiva de reação e insumos sem arrefecimento. O conflito é um fator que vai onerar ainda mais o produtor”, aponta.

Do milho à carne

Do lado da exportação, a CNA destaca que o Brasil comercializou US$ 2,920 bilhões em produtos do agronegócio para o Irã no último ano, sendo o 11º principal destino global das vendas e 3º principal destino no Oriente Médio. Os principais produtos exportados são milho, soja e açúcar.

A CNA classifica o milho com exposição sensível aos impactos do conflito, enquanto carne bovina tem exposição baixa a moderada e soja e açúcar baixa exposição. “O milho é o maior ponto de atenção nas exportações ao Irã, mas com risco menor no curto prazo devido à sazonalidade dos embarques. Em carne ovina, os principais mercados não dependem diretamente da região do conflito, mas o aumento do frete e do seguro pode pressionar custos”, destacou a CNA.

Na soja, a participação do Irã é pequena no total exportado pelo Brasil, de 1,3%, o que reduz a relevância do impacto direto e facilita o redirecionamento a outros mercados, bem como no açúcar, as exportações brasileiras para o Irã são limitadas e irregulares, somando 1,7% do total exportado, com efeito potencial marginal para a cadeia, segundo a CNA.

Apesar de 23% das exportações brasileiras de milho serem destinadas ao Irã, os embarques do cereal ocorrem em janela sazonal, geralmente entre agosto e janeiro, o que limita os impactos sobre o fluxo comercial do grão. “Mesmo que possa ter algum problema nesse período, o setor pode compensar mais à frente a depender da duração do conflito. Por outro lado, os Estados Unidos precisam comprar a ureia agora, assim como Europa e Índia, o que implica na redução de área e favorecer o preço do cereal”, ponderou Lucchi.

No caso do frango brasileiro, cujo 23% das exportações são direcionadas ao Oriente Médio, a CNA afirma ver esforço da indústria em adequar a logística. “Apesar de multas e fretes, a indústria está conseguindo readequar rotas diante do contexto”, apontou.

Em relação à carne bovina, a CNA destaca que 6,8% da proteína brasileira é exportada para o Oriente Médio. “Chamou atenção o impacto estimado pela indústria da carne, porque a região não é rota para China e Estados Unidos. A arroba teve uma queda significativa, a qual consideramos precipitada porque não há percepção clara de custo logístico e do prolongamento do conflito, além de que as escalas de abate estão bem ajustadas”, afirmou Lucchi. Ele destaca que foi verificado derrubada abrupta do preço pago ao pecuarista.

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